Usina de ideias (parte 2)
julho 25, 2010
Uma vivência da oficina de Dramaturgia do Festival Dulcina de Cenas Curtas
Por Victor Carballar
Uma imagem. Assim começa a ofi cina de Dramaturgia, ministrada por Cássio Pires. Tendo essa preposição como aspiração, os participantes tiveram a oportunidade de observar os acontecimentos corriqueiros do cotidiano urbano e, a partir de então, elaborar uma sinopse dramática.
Sem regras e receitas, Cássio Pires estimulou que os alunos fossem livres para a criação de histórias pautadas nas cenas vistas na cidade. Cada participante compartilhou suas constatações com o grupo, abrindo espaço para diferentes pontos de vista, possibilitando assim a difusão de ideias.
“O que me encanta em dramaturgia é a potência das palavras. Esses exercícios estão sendo uma novidade pra mim. É algo sensorial, quase místico. A beleza da descoberta está em criar seres ficcionais por meio dos reais”, disse Hugo Amorim, 28 anos, estudante de Artes Cênicas da FADM.
A oficina chega ao fim hoje. No entanto, essa história não acaba aqui. Os exercícios foram tão animadores que os participantes se propuseram a continuar a escrever os contos que começaram no Festival Dulcina de Cenas Curtas. Quem sabe se não está nascendo hoje uma cena para a próxima edição da mostra?
Usina de ideias (parte 1)
julho 25, 2010
Uma vivência da oficina de Direção do Festival Dulcina de Cenas Curtas
Por Marcos França
Letícia Guazzelli, diretora da cena A caixa de Pandora (PR), transformou as escadas do quarto andar da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes em palco. Sentada sobre o último degrau, encarava fixamente o céu ensolarado enquanto dizia estar à espera da chuva. O que parecia inusitado era o comando do oficineiro Luiz Fernando Marques para os participantes da oficina de Direção. “Foi uma cena muito simples, mas intensa. Era doce, mas angustiante também. Ela parecia estar lá há muito tempo”, comentou o estudante Gustavo Pinheiro, 17 anos.
Os pedreiros responsáveis pela reforma do pavimento integravam a plateia. Sob o comando do diretor do Grupo Teatro XIX, o grupo foi convidado a buscar dentro e nas proximidades da faculdade, lugares esquecidos, desconectados de alguma forma com o ambiente em que estão dispostos, para, em seguida, criar e apresentar à turma uma pequena cena que não apenas permitisse, mas estimulasse o diálogo entre o espaço e a comunidade. Luiz Fernando reconhece a complexidade do desafio, mas garante que “a possibilidade de fazer uma composição cênica única e tão rica compensa”.
Vestido nu
julho 25, 2010
Crítica de A caixa de Pandora, da Cia. de teatro de Cujus (PR)
Por Marina Severino
O misterioso e divertido tipo, que rasga o ar com sensualidade e um olhar fatal, insinua sexo desde o primeiro minuto de A caixa de Pandora. No palco, o ator Eduardo Amaral é um homem sério vestido com elegância discreta. Ele tira casaco, sapato e meia, como em um jogo de conquista que diz respeito, ao mesmo tempo, à cena e à plateia.
Os precisos movimentos do ator revelam, sem palavras, a força feminina da personagem que o tomará a seguir. Enquanto brinca com trejeitos delicados, em leves balanços de braço e perna e jogadas de rosto, o homem despe-se para vestir-se da travesti que encarna em cena.
A mulher que surge em corpo de homem seminu não usa maquiagem, saia ou qualquer outro elemento que torne a associação evidente. Mesmo assim, a travesti de Eduardo Amaral domina o palco, com passos firmes e uma fala direta. Enquanto conta histórias de desejo, insiste ao público, que como o parceiro à procura de sexo, o consuma e o descarte, até que se expõe como um Cristo crucificado e se entregue à cena como em um ato sexual. São as contradições de brutalidade, humor e sensualidade, com um ritmo crescente e intenso, que fazem dessa cena um efetivo e equilibrado convite à reflexão.
Paris em chamas
julho 25, 2010
Crítica de A dama da noite, de Fernando Martins (DF)
Por Sérgio Maggio
Fernando Martins pisa num território minado quando se propõe a levar a cabo a cena A dama da noite. O jogo inicial parece claro. A personagem feminina tem ambiência típica da comédia besteirol. É extravagante, transita dúbia entre uma perua ou uma travesti, explora o humor ferino e embebeda-se durante o percurso da cena. O texto a serviço da comédia parece ser sempre uma onda para elevar essa figura bizarra, e o risco da caricatura parece iminente.]
Poucos minutos são suficientes para reverter o que parecia um curso certo ao óbvio. Fernando Martins caminha nos contornos da caricatura. Vai humanizando a personagem numa dimensão sutil e explora o humor natural do texto delicado de Vicente Pereira, que, sem piedade, expõe a solidão e os seus limites. O ator controla a tênue relação entre humor e drama. Na metade da cena, já tem o espectador como voyeur do seu desespero.
A presença cênica de César Lignelia ao acordeom é mais que a presentificação da música no palco. Na direção hábil do monólogo, o instrumentista se transforma em ponto de interlocução do ator e estabelece diálogo gestual com a personagem. Ao final, apesar da apoteótica e calculada ação o rompimento das pérolas, o humor, raiz do texto, estabelece-se. “Os lírios nascem na lama”. Dá vontade de pedir, um drink Paris em chamas! Tintim!
Vida em contrapontos
julho 25, 2010
Crítica de À espera, de Hyandra Lo (DF)
Por Marina Severino
Uma prisão sem grades é a metáfora usual para aqueles que vivem sob os assombros de uma doença terminal. Mas, mesmo com a perspectiva de poucos meses de vida, o protagonista de À espera prefere se agarrar às belezas do dia-a-dia, de vidas que não são dele. Observa os outros por horas na calçada, ou em uma loja, e imagina a pulsante rotina à qual é alheio.
A prisão liberta em que vive evidencia o bem-sucedido esforço em deixar a história ser contada por todos os detalhes. O muro de tijolos estilizado, permeado com frestas de onde o protagonista vê o mundo como vitrine, contrapõe-se com brutalidade à leveza de um aquário, de onde o interlocutor, um peixe alaranjado, passeia sem sair do lugar.
Sufocado, porém doce, o ator Felipe Diox surge neste monólogo como um contador de histórias, saltando de um fato a outro, e revela em etapas os detalhes da vida do personagem. Mas mesmo lançando mão de recursos para manter o público preso à história, em rompantes de fúria, riso e melancolia, a performance se prolonga um vaivém de palavras que abre espaço para a fuga do espectador.
Cena-poema
julho 25, 2010
Crítica de Beatriz, da Cia. Instrumento de Ver (DF)
Por Sérgio Maggio
A acrobata Beatrice Martins faz do trapézio baixo de um ponto, técnica circense que domina com perfeição, o salto para extrapolar a virtuose e se alçar no campo subjetivo da arte. No palco, ela risca movimentos que criam células corporais e rítmicas como a de um teatro-dança, explorando diversas qualidades do corpo, como a dicotomia leveza x
peso. Constrói uma potente coreografia transformando o corpo esguio e atento de uma atleta em massa disforme, que se molda à medida que emergem sentimentos como solidão, angústia, saudade, base de sua pesquisa anunciada previamente para a criação da cena Beatriz.
Beatrice Martins transpõe o âmbito da canção inspiradora às saudades do país natal, ao desolamento dos imigrantes e aos sonhos da terra estrangeira. Tudo isso passa pelo seu corpo que voa e salta ao chão do palco, numa cena-poema, com trilha sonora que inteligentemente não tangecia a matriz criativa (a obra-prima Beatriz, canção de Chico Buarque e Edu Lobo para a trilha original de O grande crco místico, espetáculo do Balé Teatro Guaíra).
Responsável por um dos momentos mais lúdicos do Festival Dulcina de Cenas Curtas, Beatriz ainda abre as portas para que experiências híbridas em dança-teatro-circo-vídeo possam visitar o palco do Teatro Dulcina de Moraes nas próximas edições.
Cena gigante
julho 25, 2010
- Coordenadores dos festivais de cenas breves de quatro estados propõem ações de troca e de circulação
Por Marcos França e Silvia Guerreiro
Se depender dos coordenadores dos quatro festivais de cenas curtas realizados no país, a comunicação, a circulação e o intercâmbio serão o tripé que sustentará as ações a partir da estada na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (FADM). O primeiro movimento tem até nome. Atende por Circula Cena – Circuito Nacional de Festivais de Cenas Curtas. Na proposta, os representantes de Manaus, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba passariam a visitar as mostras de cada capital e assegurar as trocas das cenas entre as mostras.
O projeto, que será encaminhado à coordenação de Artes Cênicas da Funarte em busca de apoio, nasceu do Encontro de Coordenadores dos Festivais de Cenas Curtas, ocorrido na tarde de ontem, na FADM. Foram discutidas ainda alternativas para superar desafios e traçar novas metas. “A rotina de visitar festivais é uma forma de trocar, avaliar e fazer as iniciativas se fortalecerem”, avalia Leonardo Lessa, do Festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. “Estimulam também o crescimento de inscrições de projetos de outros estados”, emenda.
Para o grupo, o III Festival Dulcina de Cenas Curtas mostrou uma significante mudança contando com cenas de vários estados e serviu para conhecer o potencial do encontro de coordenadores. “O momento é de confluência e fortalecimento de identidade coletiva, mas também de reconhecimento das peculiaridades de cada festival”, avalia Márcia Moraes, da Mostra Cena Breve de Curitiba.
A articulação nacional do grupo começou com a conexão espontânea desses eventos, seguida da criação de uma rede de troca de experiências que teve início em junho passado em reunião durante o 11ª Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto.
Estavam presentes: Dyego Monnzaho, do Festival Breves Cenas de Manaus; Márcia Moraes, da Mostra Cena Breve de Curitiba; Francis Wilker, do Festival Dulcina de Cenas Curtas; e Leonardo Lessa, do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto.
Para espairecer
julho 25, 2010
Crítica de O ninja, de marco Davi R. L. de Lopes (DF)
Por Sérgio Maggio
O trabalho corporal de Marcos Davi é mesmo o centro dramático da cena O ninja. Desde o primeiro segundo em que ele surge no palco, fisga a atenção da plateia e estabelece o grande desafio. Segurar o fôlego do espectador dentro de uma linguagem extremamente complexa, que é a mímica dramática. De alguma forma, ele consegue o objetivo pela extrema habilidade técnica com que se movimenta, construindo os quadros dramatúrgicos. Dialogando com gags de clown e a remissão à estética dos quadrinhos, escreve visualmente, com o corpo, uma histórica nítida e de comunicação imediata com a platéia.
É exatamente neste ponto que Marcos Davi enfrenta a principal dificuldade. Superar uma dramaturgia extremamente óbvia, com reminiscências clássicas, como a do cachorro que se agarra a perna do ladrão. Sem a possibilidade de construir significados ou reflexões, a cena O ninja acaba por restringir a virtuose de Marcos Davi e a um esquete, sobretudo, cômico.
A cena se expõe ainda mais porque, imediatamente anterior, fora apresentada Duas palhaças e um pequeno príncipe que, numa simplicidade devastadora de gestos e palavras, estabeleceu uma reflexão crítica tão tocante sobre a existência humana que O ninja parece um belo e leve quadro para espairecer.
Humor singelo
julho 25, 2010
Crítica de Duas palhaças e um pequeno príncipe, da companhia As Marias da Graça, (RJ)
Por Marina Severino
Shoyu é uma palhaça doce, não contém as reações e responde a uma pergunta mesmo quando não direcionada a ela. Ao lado de Indiana, que narra a famosa história do pequeno príncipe e da raposa de Saint-Exupéry, poderia ser abafada pelo olhar repressor da sisuda companheira de cena. Mas duas palhaças demonstram um equilíbrio singelo, reforçado pela empatia das atrizes Karla Concá e Vera Ribeiro. A cena não se limita a um argumento singular, bem comum às cenas apresentadas em tempo curto. A montagem é plural e rompe o palco com piada sobre as regras das cenas curtas, quando as palhaças pedem para alguém do público contar o tempo. Afinal, elas não saíram do Rio de Janeiro para perder pontos por falar demais.
A cada minuto mais próximas do público, as palhaças contam uma das histórias mais populares do mundo com o calor de uma novidade. Sem se preocupar em manter sintonia com um ritmo acelerado, se seguram em olhares, numa ascendente intimidade entre si e com a plateia.
Elementos que poderiam ser chamativos no visual clown – o cabelo desarrumado de uma, as meias da outra – compõem a cena de forma discreta. Nada de puxar suspensórios ou se esconder atrás do nariz. As duas expõem assim a força do texto clássico da literatura em harmonia com uma nova interpretação. É difícil não se encantar mais uma vez com a história de Exupéry.
Planos difusos
julho 25, 2010
Crítica de Pronto para mudar, de Michelle Gonçalves, Mimi Bonnenfant e Priscila Jácomo, (SP)
Por Sérgio Maggio
A dramaturgia coletiva de Pronto para mudar é o trunfo e simultaneamente o risco da encenação da cena paulista. Misturando planos de realidade e de delírio, a narrativa se desenha ousada em campos difusos. Quando está no nível de uma possível situação trivial de venda de um imóvel, segue em velocidade capaz de arrastar o espectador junto com a atriz. Quando se alterna para um universo onírico, quase absurdo das personagens fantasmas, engasga numa construção de sentido oscilante.
A concepção da cena não consegue diferenciar nem harmonizar essas passagens, o que dá uma sensação de impotência no espectador ao tentar fruir junto com a cena. Com espécie de abismo estabelecido, a narrativa segue sem um diálogo possível entre esses planos, acentuando uma atmosfera nonsense um tanto artificial.
Com tons distantes, as atrizes parecem executar trabalhos totalmente díspares. Apesar do descompasso dramatúrgico entre texto e cena, Pronto para mudar tem uma concepção de cena orgânica, com bom domínio espacial e cenário narrativo. A participação do público, por exemplo, o que, em princípio poderia ser um caos, acaba por ser um dos momentos de respiro.









