Paris em chamas

julho 25, 2010

Foto: Thiago Sabino

Crítica de A dama da noite, de Fernando Martins (DF)

Por Sérgio Maggio

Fernando Martins pisa num território minado quando se propõe a levar a cabo a cena A dama da noite. O jogo inicial parece claro. A personagem feminina tem ambiência típica da comédia besteirol. É extravagante, transita dúbia entre  uma perua ou uma travesti, explora o humor ferino e embebeda-se durante o percurso da cena. O texto a serviço da  comédia parece ser sempre uma onda para elevar essa figura bizarra, e o risco da caricatura parece iminente.]

Poucos minutos são suficientes para reverter o que parecia um curso certo ao óbvio. Fernando Martins caminha nos  contornos da caricatura. Vai humanizando a personagem numa dimensão sutil e explora o humor natural do texto  delicado de Vicente Pereira, que, sem piedade, expõe a solidão e os seus limites. O ator controla a tênue relação entre  humor e drama. Na metade da cena, já tem o espectador como voyeur do seu desespero.

A presença cênica de César Lignelia ao acordeom é mais que a presentificação da música no palco. Na direção hábil do  monólogo, o instrumentista se transforma em ponto de interlocução do ator e estabelece diálogo gestual com a  personagem. Ao final, apesar da apoteótica e calculada ação o rompimento das pérolas, o humor, raiz do texto,  estabelece-se. “Os lírios nascem na lama”. Dá vontade de pedir, um drink Paris em chamas! Tintim!

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