Vestido nu
julho 25, 2010
Crítica de A caixa de Pandora, da Cia. de teatro de Cujus (PR)
Por Marina Severino
O misterioso e divertido tipo, que rasga o ar com sensualidade e um olhar fatal, insinua sexo desde o primeiro minuto de A caixa de Pandora. No palco, o ator Eduardo Amaral é um homem sério vestido com elegância discreta. Ele tira casaco, sapato e meia, como em um jogo de conquista que diz respeito, ao mesmo tempo, à cena e à plateia.
Os precisos movimentos do ator revelam, sem palavras, a força feminina da personagem que o tomará a seguir. Enquanto brinca com trejeitos delicados, em leves balanços de braço e perna e jogadas de rosto, o homem despe-se para vestir-se da travesti que encarna em cena.
A mulher que surge em corpo de homem seminu não usa maquiagem, saia ou qualquer outro elemento que torne a associação evidente. Mesmo assim, a travesti de Eduardo Amaral domina o palco, com passos firmes e uma fala direta. Enquanto conta histórias de desejo, insiste ao público, que como o parceiro à procura de sexo, o consuma e o descarte, até que se expõe como um Cristo crucificado e se entregue à cena como em um ato sexual. São as contradições de brutalidade, humor e sensualidade, com um ritmo crescente e intenso, que fazem dessa cena um efetivo e equilibrado convite à reflexão.
