Vida em contrapontos
julho 25, 2010
Crítica de À espera, de Hyandra Lo (DF)
Por Marina Severino
Uma prisão sem grades é a metáfora usual para aqueles que vivem sob os assombros de uma doença terminal. Mas, mesmo com a perspectiva de poucos meses de vida, o protagonista de À espera prefere se agarrar às belezas do dia-a-dia, de vidas que não são dele. Observa os outros por horas na calçada, ou em uma loja, e imagina a pulsante rotina à qual é alheio.
A prisão liberta em que vive evidencia o bem-sucedido esforço em deixar a história ser contada por todos os detalhes. O muro de tijolos estilizado, permeado com frestas de onde o protagonista vê o mundo como vitrine, contrapõe-se com brutalidade à leveza de um aquário, de onde o interlocutor, um peixe alaranjado, passeia sem sair do lugar.
Sufocado, porém doce, o ator Felipe Diox surge neste monólogo como um contador de histórias, saltando de um fato a outro, e revela em etapas os detalhes da vida do personagem. Mas mesmo lançando mão de recursos para manter o público preso à história, em rompantes de fúria, riso e melancolia, a performance se prolonga um vaivém de palavras que abre espaço para a fuga do espectador.
